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Esse artigo é pra ontem

Atualizado: há 1 dia

Por Simone Cyrineu, CEO e fundadora da thanks for sharing

Aconteceu de novo. Conheci outra pessoa que recentemente deixou o ambiente das agências de marketing e publicidade e seus clientes. O que me intriga sobre esses casos, cada vez mais comuns, é que quando a pessoa comenta que resolveu mudar de área, percebe-se ali um misto de sentimentos: o fato de deixar de fazer algo que gosta, algo criativo e de certo impacto, com o desejo de viver uma vida mais tranquila e estabelecer uma rotina saudável e próspera. É quase que um sentimento de pesar ao contar essa saída.

Em algumas reuniões comerciais das quais participo é nítido nos comentários iniciais qual é o perfil do cliente, se ele de fato está procurando alguém para cocriar e ser uma extensão das suas entregas planejadas ou se está procurando alguém que vai resolver os seus desarranjos e sua falta de controle.

Mas onde começa isso tudo? A quem recai a culpa de prazos insalubres do mercado?

Dos fornecedores terceiros? Que muitas vezes ficam na linha tênue da sobrevivência de um fluxo de caixa sem reservas e por isso precisam aceitar qualquer oferta. Das empresas clientes? Que crescem sem planejamento, e precisam acompanhar o que está sendo feito em seu mercado, mas que só se descobrem já com a ação do concorrente no ar, então é preciso correr contra o tempo.

Pode ser que comece na falta de conhecimento e interesse em entender como funciona, um pouco mais detalhadamente, todo o processo para aquilo que você quer ou precisa para colocar seu projeto no ar. No mercado criativo existe um jargão para isso: “fritar pastel”. Eu não tenho fontes da origem dessa expressão amplamente utilizada por todos que vivem nesse looping corporativo não saudável. Mas o que sei é que quem repete isso talvez esteja só de fato repetindo, e não se atentando ao que realmente importa: o processo e metodologia de trabalho.

No caso do nosso querido pastel, o que você vê ali na feira na tua hora do almoço, nada mais é do que o resultado de um longo processo.


Vamos lá, você já deve ter visto algo do tipo: ao pedir seu sabor de preferência sempre há ali um gaveteiro de metal onde já estão guardados e organizados por sabor todos os pastéis que serão vendidos naquele dia. Isso significa também que alguém fez esse pré-preparo antes da feira, fez a massa, fez e colocou o recheio, fechou o pastel e fez a marquinha especial de cada um para os sabores não se misturarem na fritadeira.


Você entendeu o exemplo, não vou me alongar dizendo que também tem a etapa de colocar todas as coisas e ferragens no caminhão, limpar, pois, provavelmente estavam em outra feira de outro bairro no dia anterior, aquecer o óleo e por aí vai. Existe processo e metodologia nas feiras, e que funciona muito bem por sinal. Só não tem a glamourização para chamar de workflow, jornada ou experiência do cliente ou algo do tipo.


Voltamos ao ponto: nem fritar pastel é algo para ontem.


Porque então, quando falamos de projetos de marketing, que possuem complexidade infinitamente maior, existe uma cultura de prazo para ontem? Onde está a ponta desse fio emaranhado para começarmos a puxar e desatar os nós? Nos fornecedores que são envolvidos pela oportunidade de entrar em determinado cliente e exibir seus logos como chancela de qualidade e entrega? Ou que são motivados pelo receio de “perder o cliente”? Nas empresas clientes que vivem culturas hierárquicas extremamente verticais e gargalos nas devidas aprovações? Falta de foco e excesso de micro gerenciamento? Ou será ainda que começa no medo?


No medo das pessoas, de gente como a gente, de contestar e dizer “não vai dar”. Medo de perder o cliente, medo de perder o emprego, medo de não atender as expectativas de quem está como solicitante, medo do cliente ir para o concorrente, medo do seu time achar que você está desengajado, medo de ser rotulada como não profissional.


Qual o seu medo? Aquele que faz você corroborar com situações de trabalho com as quais não concorda?


É por isso que eu insisto tanto na cultura da transparência e conexão. Porque quanto mais sinceras forem as suas relações, contratos e condições de trabalho, melhores serão as entregas e mais felizes e engajadas estarão as pessoas envolvidas.


Fácil falar, difícil fazer. Por isso essa conversa se faz tão necessária.

Porque não existe absolutamente NADA para ontem! E olhe ao seu redor: nada, absolutamente nada que está a sua vista ou teu alcance foi feito sem prazo, sem um processo, método, sem todo um sistema coexistente.


Esse não é um problema só do fornecedor ou só da empresa cliente. É um co-problema que precisa ser resolvido em conjunto. Principalmente se o mercado criativo quer criar condições para manter e atrair os bons profissionais na área.


Então, como é possível aliar uma rotina saudável com os compromissos do mercado? Educando os envolvidos de como funciona o processo e etapas para que a demanda seja atendida, e sabendo colocar os limites para que o processo educativo seja absorvido e respeitado. Mais do que isso: explicando os tempos e movimentos necessários para que cada etapa aconteça com a qualidade esperada.


Quem ganha com tudo isso? Todos. Clientes ganham trabalhos melhores, poupam recursos de tempo de gestão e investimento financeiro pois possivelmente vão reduzir refações e ajustes oriundos de algo manipulado em tempo aquém do necessário. Fornecedores ganham produtividade ao reduzir refações e liberar espaço para novos projetos, além das dignas horas de sono sem virar noites e noites trabalhando.


Todos ganham times mais engajados, produtivos e felizes. Pois a pressão da urgência e imprevisibilidade é substituída por planejamento e respeito aos processos internos e externos dos parceiros fornecedores.


E ainda um bônus: você se torna uma pessoa interessante ao se interessar pelo processo do outro e como as etapas acontecem. Conhecimento e informação é algo poderoso. É tempo de rever as relações comerciais, entrarmos num círculo virtuoso sem medo.


No seu próximo briefing, pergunte: o que você precisa para que esse resultado que eu quero seja possível? A resposta pode ser técnica, hardware, software, gente, mas muitas vezes é bem mais simples: tempo.


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Simone Cyrineu é formada em Comunicação Social pela UMESP e pós-graduada em Gestão de Vendas e Negociação pela Fundação Instituto de Administração. Com mais de 15 anos de vivência e experiência no mercado audiovisual, ao buscar ressignificar esse mercado e a forma de produzir vídeos, ela fundou a thanks for sharing, produtora especializada em vídeo motion design, que oferece inteligência e experiência audiovisual. Apaixonada pela diversidade cultural e pluralidade dos seres humanos, SiCy, além de ser CEO da thanks, também é membro da Rede Brasileira de Mulheres LBTQ+ e mentora voluntária no programa LGBT Mentoring. 


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